Centro de Artes Graça Morais
Com ficção mas sobretudo com recordação das cartas que, desde a aldeia recebia dos meus avós…
4 de Maio de 2009
Minha querida Graça Morais,
Antes de mais espero que estejas bem de saúde, tal como desejo o mesmo para toda a tua família. Por aqui está tudo pelo melhor.
Como sabes não ia à terra há mais de um ano, no entanto quando fui a Vieiro há dois meses, disseste-me que, para este ano, tudo indica que as colheitas sejam fartas. Não tivemos muito tempo para falar sobre este tema, mas sabes que fiquei muito contente. No ano que passou, a chuva quase que não deu sinais de si.
Os ares por aqui estão húmidos e continuam frios, mas aposto que aí, em Trás-os-Montes, a terra tenha já o cheiro da Primavera e a flores perfumadas. Não queiras saber as saudades que tenho para ver as amendoeiras em flor, elas, para mim, estão sempre no meu imaginário.
Como sabes, nunca deixo de acompanhar o teu trabalho, as entrevistas as várias exposições, etc. Sempre demonstraste uma qualidade inigualável, mas o que mais aprecio em ti, não é isso, é sim o facto de nunca te teres esquecido das tuas origens, da tua gente.
Sobre este propósito gostaria de te falar do projecto do Centro de Artes ao qual desejo que no futuro, fosse uma referência no panorama cultural e social de Vila Flor e de Trás-os-Montes, onde o público pudesse contemplar de forma permanente a tua obra bem como outras facetas que poderão existir.
Por temas, sucintamente, explico:
(Unificação Parcelaria)
Tal como nas tuas pinturas cujas figuras dispersas na tela têm uma ligação implícita que as une, o projecto procura que a rua (ligeiramente alargada) seja entendida como uma variável que unifique os dois lugares/parcelas propostos para a edificação/requalificação.
Sabes, desde os primeiros desenhos, a rua sempre foi muito importante para a proposta que te apresento, isto é para o Centro de Arte como um todo. Pensou-se que teria que existir uma dialéctica entre os planos verticais (fachadas) e o plano horizontal (pavimento da rua), de maneira que a ligação directa entre as duas parcelas fosse sentida. Esta estratégia entendeu-se como muito importante.
Paralelamente a esta ligação, sentimos a necessidade de criar uma outra, desta vez física, que proporcionasse um acesso protegido do clima e desenvolvesse um percurso contínuo entre os dois conjuntos. Para não perturbar visual e fisicamente a rua, em vez de uma ligação através de uma ponte, propomos um túnel à cota da entrada principal do Centro de Arte.
(Flexibilidade)
Sentindo que as tuas obras têm um alcance superior aos limites da tela perante o qual representas uma percepção pessoal da região transmontana, também queremos que este Centro de Artes seja um equipamento de carácter urbano que alcance um público diferenciado e que, como te referi anteriormente, dinamize o território envolvente de Vila Flor.
Para tal, desenhamos um espaço flexível, versátil e adaptável ao uso, à gestão e à produção sócio-cultural.
Autonomizando os espaços principais do programa – exposição permanente, biblioteca, exposição temporária e área educativa/ateliers – através de entradas independentes e de painéis de correr, limitamos ou ampliamos os vários espaços.
A disposição do programa também foi pensada de modo a minimizar as áreas de circulação e obter, como no caso das instalações sanitárias principais, peças que facilmente se articulam com todas as áreas públicas, maximizando a funcionalidade.
Para a sala de exposição temporária, à qual achamos melhor designar de sala polivalente, propomos um espaço que recorre da relação de duas cotas distintas, a base da sala e o coro. A interligação destes dois níveis pode tomar duas formas: a primeira, recorrendo a umas escadas móveis, que facilmente se recolhem para a arrecadação contígua; a segunda, recorrendo a um mecanismo, capaz de transformar o piso horizontal da sala num auditório em escadas, com capacidade para cerca de 100 pessoas, servindo este para pequenas récitas, teatros ou conferências que certamente animarão a nossa linda cidade.
Conseguimos assim, por uma perspectiva quanto as das tuas obras, uma leitura contemporânea do edifício e de Vila Flor. Sempre pensei que esta obra deverá ter o carácter de algo que se transforma, de algo que permite…
(Acessibilidade e Entradas)
O acesso principal ao conjunto situa-se no volume contíguo à casa existente. Assente na memória da antiga garagem, a entrada é marcada por uma boca voltada para a praça (embora não tenha dimensão para tal, é nossa ideia que essa boca funcione como elemento de “sucção”). Esta localização projecta o visitante para um extenso espaço onde se situa a recepção, a loja e a cafetaria, tendo como remate visual as escadas em caracol que permite o acesso ao piso superior, isto é, essencialmente à exposição permanente.
Na rua, propõe-se mais duas entradas de modo a servirem autonomamente, a sala polivalente – neste caso o auditório – e os ateliers.
A entrada de serviço, para o acesso directo do pessoal, localiza-se num dos vãos térreos da casa existente, à mesma cota da entrada principal, com comunicação directa aos percursos reservados.
O núcleo de reservas/oficina, colocado ao mesmo nível da sala polivalente – melhor resposta à questão funcional – estabelece uma comunicação precisa com a cota do arruamento. Sendo assim, a proposta que apresentamos visa facilitar o transporte das peças de arte de uma forma rápida, eficaz e segura entre todas as áreas comunicantes.
Por fim, o acesso às áreas técnicas é realizado a partir da rua mantendo uma ventilação permanente necessária às instalações mecânicas.
(Genius Loci – o espírito do lugar)
Minha querida, o projecto assenta numa estratégia de relação com o sítio, tanto na utilização da escala, das suas proporções, como na apropriação de elementos existentes. Gostaria de te enunciar este ponto segundo 3 perspectivas:
1. Preservação das quatro amendoeiras: a partir de uma visita às parcelas do projecto, realizamos um levantamento das amendoeiras existentes. Para nós estas quatro árvores são demasiado importantes. Colocámos sempre o desafio de definir o projecto tendo em conta a preservação de um símbolo da região, e, mais que tudo, decidimos que a preservação das amendoeiras, teria a capacidade de se tornar uma mais-valia para a proposta. Estamos convictos que a atmosfera daquele/s espaço/s, poderá tornar-se muito interessante, repara que por vezes o limite do que é interior dilui-se com o que é exterior. Imagino aqueles pátios cheios de meninos a pintar.
2. Memória da varanda/alpendre: no programa é solicitada a recuperação do volume que tem a varanda voltada para o arruamento, isto é um facto. Minha querida, compreendo perfeitamente esta tua preocupação, no entanto gostaria que percebesses que aquele corpo estava em muito más condições para o seu restauro. Por sua vez gostaria que compreendesses que este volume iria pôr em causa o carácter, a imagem forte, e sobretudo a clareza que o novo edifício tem perante o espaço público, isto é perante a rua. No entanto, não deixámos de trabalhar com a memória e incluímos a figura da varanda/alpendre na proposta. Para nós este espaço de transição interior/exterior, ao contrário da pequena varanda antiga, revela-se agora com dimensão capaz de funcionar como espaço de exposição (esculturas ao ar livre por exemplo). Visto que por causa das obras de arte – questões ambientais – será necessário manter encerradas as portas e janelas da casa, clarificando, é a partir do alpendre, o único acesso ao terraço.
3. Cobertura inclinada: apropriámo-nos de uma figura incontornável da paisagem, ou seja, da cobertura inclinada. Na procura de uma harmonização com a envolvente histórica, optámos por uma cobertura inclinada com múltiplas faces que se guiam pelas alturas das edificações mais próximas e mantêm uma continuidade com os beirais vizinhos. Esta expressão formal provoca no interior diferentes dinâmicas espaciais com a variedade de alturas e com os planos inclinados do tecto. Imaginando a expectativa de que algo poderá surgir do interior, quando visto do exterior, esta composição expressiva recorda-nos o jogo do cocas. Optando por envidraçar um “triângulo colorido” do jogo – voltado a Norte – é possível, com luz natural e difusa, iluminar eficazmente a sala polivalente.
(Restauro)
Gostaria de te enunciar um pouco as nossas ideias em relação ao restauro da casa. Como sabes, neste momento, a casa carece de uma intervenção minuciosa e eficaz. Acredito que este lugar de memórias, irá com toda a certeza renascer. Acredito que esta estratégia é também uma forma de realizar cultura.
Segundo a Carta de Veneza, o restauro é um tipo de operação altamente especializado. O seu objectivo é a preservação dos valores estéticos e históricos do monumento, devendo ser baseado no respeito pelos materiais originais e pela documentação autêntica. Como podes verificar nas imagens que anexo a esta carta, a proposta dá uma resposta categórica a este ponto. Apesar disso, gostaria de lançar um desafio sem compromisso para que penses nele. Estruturo-o também a três níveis:
1. Sendo este o nível menos importante, poderá ser vantajosa uma diferença no que toca ao aspecto interior do Centro de Arte Contemporânea em Bragança.
2. Parece-nos que o uso da contemporaneidade poderá ser útil não só do ponto de vista técnico – através do uso de técnicas contemporâneas de restauro – mas também do ponto de vista estético. Como sempre te refiro, apesar da escala do projecto ser reduzida e estar inserido num contexto rural, parece-me que aqui surge uma oportunidade; uma oportunidade para que este edifício possa ser uma “peça” com uma linguagem arquitectónica super contemporânea, uma peça com presente e sobretudo com futuro.
3. Agora mais do ponto de vista do conceito – “coisas de arquitectos” – seria muito mais uniforme uma tonalidade de pavimento, uma cor nas paredes interiores, etc.
Um outro tema da Carta de Veneza, qualquer operação desse tipo deve terminar no ponto em que as conjecturas comecem, qualquer trabalho adicional que seja necessário efectuar deverá ser distinto da composição arquitectónica original e apresentar marcas que o reportem claramente ao tempo presente. Como poderás constatar, um volume novo é o que propomos para o Centro de Artes.
(Matérias)
Algures no desenrolar da proposta, surgiu-nos a ideia de trabalhar apenas com um único volume – como se não existisse rua e as duas parcelas fossem uma só. Naturalmente esta ideia de um grande volume era utópica. Contudo porque não usar essa ideia e adaptá-la à condicionante do nosso terreno de intervenção – terreno este dividido em duas parcelas.
Posto isto, gostaria de te explicar a nossa ideia usando como referência um coco. Escuro por fora, muito branco por dentro. Sendo assim, imagina que o nosso edifício é este mesmo coco, isto é, um volume revestido a um xisto escuro – xisto como material da região. De seguida serras o coco ao meio. Separas as partes. Imagina agora o interior muito branco – como cor representativa de contemporaneidade. É este conceito de contraste que nos interessou estudar e propor.
Para além do uso do xisto sobretudo da fachada Sul da Parcela 2, propomos que este se propague para cobertura. Este procedimento, apesar de ambicioso, parece-nos fazer todo o sentido, visto que, para além da cobertura ter uma grande presença no sítio – realçando a expressividade tectónica do material – permite-nos unificar toda a “pele” do edifício apenas com um número muito reduzido de matérias, logo transmitindo uma ideia de pureza, de simplicidade e sobretudo relacionando com a defesa da identidade de uma sociedade rural.
Usando novamente o exemplo do coco, se observares as faces cortadas do novo volume, verificarás que as mesmas são compostas por elementos estruturais verticais espaçados entre si – embora mais característicos do Minho, poderíamos referenciar esta ideia, aos espigueiros como construções representativas da arquitectura vernacular. Estes elementos permitem uma vez mais uma visão dual entre o interior e o exterior que consolida, uma vez mais uma relação com o espaço público – neste caso com a rua. Esse espaçamento amplia a iluminação natural no interior, ou transversalmente, de noite, acrescenta uma iluminação artificial à rua.
No sentido de reforçar ainda mais a unidade entre os dois volumes, pareceu-nos apropriado retratar o desenho dos elementos verticais das fachadas perante o pavimento.
Por último esta união de fachadas torna-se ainda mais intensa com os cortes circulares em baixo-relevo, uma materialização abstracta das rugas que considero ser um dos elementos mais representativos e simbólicos da tua obra e ao qual justifico utilizando as tuas próprias palavras:
Muito dos rostos que desenho pertencem a mulheres marcadas, que nunca trataram a pele com cremes. Essa relação com o tempo fascina-me: lê-lo na cara dos outros, nas rugas, como que se descobre a idade das árvores nas suas cascas. Uma cara aos 60 anos, esticada por um cirurgião plástico fica sem passado.
Ansioso do teu parecer, despeço-me através de um beijo com imensas saudades tuas e da nossa gente.
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Ficha técnica:
Designação: Centro de Artes Graça Morais
Localização: Vila Flor, Portugal
Data: 2009 (Concurso)
Promotor: Câmara Municipal de Vila Flor
Projecto de arquitectura: Cláudio Vilarinho
Colaboradores: Filipe Araújo, Filipe Lemos, Gil Soares
Projecto de Arquitectura Paisagista: Nuno Almeida + Lília Coelho
Projecto de especialidades: JCT - Consultores de Engenharia, Lda.
Consultoria em Arquelologia: Víria, Arqueologia e Património, Lda.